Apresentação

O que aprendemos na academia deve ser IMEDIATAMENTE útil para tratarmos de nossa vida presente – pontuei, com algum espanto diante o tom categórico da minha anunciação, logo numa das primeiras aulas do curso. Anunciava, em meados de março de 2014, a proposta do trabalho final da disciplina Leituras de Antropologia Crítica, optativa oferecida para o curso noturno de ciências sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH/ USP. A ideia, o convite e o feito foi nos apropriarmos da leitura do livro Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem: um estudo sobre o terror e a cura (1993), de Michael Taussig, para produzir textos sobre a questão dos black blocs.

Um desafio à primeira vista surgia: o trabalho não seria exatamente sobre os black blocs. A ideia de “black bloc” era apenas temática, bastante pertinente diante a enxurrada de reportagens díspares sobre o assunto às vésperas da Copa do Mundo e a eminência de manifestações públicas dos diversos movimentos sociais atuantes(1). Parte importante do exercício proposto seria recortar, definir uma perspectiva de análise, de aproximação “disso”, que então merecida uma conceituação mais precisa: figura, entidade, emblema, grupo? Eis o que os trabalhos deveriam, através da pesquisa e reflexão, encontrar. Não dava para partir da existência dos black blocs quando o trabalho seria exatamente desconfiar e questionar as condições de sua existência. Refletir sobre sua natureza, analisar o movimento de agrupamento de pessoas sob este emblema, identificar as políticas dos discursos engendrados na constituição dos black blocs como figura do imaginário e da imaginação social. O exercício seria o de textualização crítica de tal problemática de forma a não reduzir sua complexidade. A diferença entre jornalismo e ciências sociais haveria de se revelar neste fazer.

O curso de uma Antropologia Crítica havia investigado algumas das estratégias de construção do conhecimento antropológico a fim de pensar seus alcances, limites e desdobramentos, tal como explorar alternativas. Seguiu trilha aberta por Johannes Fabian (2002) e caminhou pelas discussões levantadas por James Clifford (2008) sobre a encenação da autoridade etnográfica. Na contramão de analisar uma coleção de capítulos de livros de diversos autores, propôs dedicar-se à leitura de um único livro: Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem de Michael Taussig. A ideia de ler por completo um obra, neste caso uma obra com mais de 450 páginas, tinha propósito preciso: acompanhar o enredar de um pensamento a fim de fazer notar sua estratégia discursiva e as políticas que engendra. Neste trajeto, exploramos, especialmente, as possibilidades de uma antropologia benjaminiana (2) – perspectiva inspirada pelos textos de Walter Benjamin.

Taussig trata do papel do mito em relação à violência colonial na Amazônia do início do século XX e do poder de cura operado pelos curandeiros colombianos na década de 1970. Preocupado antes com a ficção do real e os efeitos dos discursos no real – em detrimento à verdade do ser -, debruça-se sobre a elaboração cultural do medo e questiona a produção de explicações e a política de representação etnográfica.

Ainda que a questão da “política da forma” mostre-se pertinente à etnografia e à interpretação de histórias, Taussig nota, neste livro, que há no Novo Mundo outra urgência: esforço em entender o terror que sustenta suas ditaduras. A não compreensão, o objeto odiado e o medo simultâneo, são tratados no processo de sua criação cultural. A história da violência colonial é aproximada da realidade das ditaduras na América Latina da segunda metade do século passado.

Culturas do terror são nutridas de entremesclar do silêncio e do mito, no qual a ênfase no misterioso floresce através do rumor finamente tecido por fios de realismo mágico. (Taussig, 1993: 30)

Para além, ou talvez aquém, de qualquer justificativa racionalista, Taussig trata de formações culturais de significado, então traduzidas como modos de sentir, intricadamente construídas, duradouras e inconscientes, cuja rede social de convenções e de fantasias reside em um mundo simbólico. A questão inicial do autor ganha contornos: o questionamento da produção de uma explicação, da política da representação de objetos como o terror e a tortura.

Que espécie de compreensão, de fala, escrita e construção de significado, através de qualquer meio, poderá lidar com isso e subvertê-lo? (Taussig, 1993: 31)

A tarefa que assume não exige desmistificação ou remistificação, mas uma poética bastante diversa da destruição e da revelação. Um duplo movimento de interpretação: ação combinada de redução e revelação, uma hermenêutica que seja ato de subversão mítica inspirada pela mitologia da próprio imperialismo.

O trabalho proposto à classe leitora deste livro deveria pôr em prática a forma ensaio de escrita e experiência intelectual. O texto Ensaio como forma (2003) de Theodor Adorno serviu como orientação metodológica para o exercício.

A forma ensaística surgiu especialmente pertinente já que parte do mais complexo, não do mais simples para lidar com seu objeto. Obriga a pensar a coisa, desde o primeiro passo, com a complexidade que lhe é própria. E ainda, rebela-se contra o princípio sistemático que prejulga uma coerência do objeto.

O ensaio, como forma, obedece a um motivo da crítica epistemológica por se rebelar esteticamente contra o método mesquinho, cuja única preocupação é não deixar escapar nada. Tal como aponta Adorno, o ensaio desenvolve os pensamentos de um modo diferente da lógica discursiva: coordena os elementos, em vez de subordiná-los. Suas transições repudiam as deduções conclusivas em favor de conexões transversais entre os elementos.

No final do curso, um tanto abreviado com as greves – de funcionários, professores e alunos -, foram escritos mais de 30 ensaios, todos igualmente convidados a serem dispostos para consulta pública. Esses que aqui se apresentam são dos autores que toparam colaborar com a ideia, aqueles que, não por coincidência, acredito eu, ofereceram uma autoria muito própria.

O ensaio de Beatriz Aranha, primeiro em ordem alfabética, questiona o modo como os grandes jornais e revistas assumem as declarações da polícia sobre os black blocs como fatos. A grande mídia raras vezes coloca palavras de suposição frente às declarações policias, ao contrário do que faz com os manifestantes – isso quando não se ausenta de publicar suas vozes, silenciando-as. Revela, então, como “black bloc” torna-se, antes, um tipo de categoria de acusação (3) articulada por policiais e políticos, repetida pela grande mídia, que forja e constitui a separação de bom e mal, pacífico e violento, legitimando ações repressivas e detenções arbitrárias. “E não seria o discurso vinculado pela mídia e aquele das polícias apenas um tipo específico de discurso – em si, nem verdadeiro nem falso? O problema surge quando, pela posição hegemônica que ambos se encontram, esses discursos passam a ter efeito de verdade” – considera Beatriz.

Carolina Mazzariello lança luz sobre a construção de certa ideia de liderança black bloc articulada para legitimar as prisões de Fabio Hideki (estudante de jornalismo da USP e funcionário público da mesma instituição) e de Rafael Marques Lusvarghi (professor de inglês). “Manifestantes presos ou presos políticos?” – é questão já explícita no título do ensaio. A análise de Carolina denuncia um desencontro de informações e os meandros de uma ação orquestrada pelo Estado, face omitida pela imprensa.

Já o ensaio de Davi Costa da Silva abre caminho com a poética de Carlos Drumond e de Oswald de Andrade para as trilhas que entrelaçam a criação da sensação de medo com o clamor por repressão, a mítica verdade jornalística com o mágico vandalismo black bloc. Jornalismo, Black Bloc, Copa do Mundo, Governo e Ciência se encontram através deste ensaio numa mesma encruzilhada: rituais de ordenação do caos e a falta de pleno sentido.

Eduardo Canesin faz despertar os contos de fadas que encantam os black blocs, ou ainda, os lobos maus que nos assombram desde a infância. Em ritmo de canção de ninar, mas já provocando uma espécie de despertar, o texto pergunta: “quem tem medo de lobo mau?”. Por entre os sombras da floresta e as notas do ensaio, Eduardo lembra-nos o risco de sermos engolidos pelos monstros e heróis que criamos.

Nascido na Alemanha, mas residente quase a vida toda na Espanha, Francisco Schellert, intercambista por aqui, estranha a visibilidade que os black blocs ganharam no Brasil. Seu ensaio enxerga nas telas da TV espelhos para Narciso. Os panos negros e as camisetas que encobrem os rostos black blocs, como máscaras, fazem surgir protagonistas para os noticiários televisivos. Inspirado pela sociologia de Pierre Bourdieu, Francisco nota como a televisão convida à dramatização. Faz surgir, entre aqueles cotidianamente escancarados pela violência da pobreza, protagonistas de uma história que tem horário nobre para aparição televisiva. O drama surge tão mais interessante e sedutor quanto mais encena e produz violência extracotidiana. O ensaio nos convida a vislumbrar o mito e o fetiche que são refletidos por espelhamentos.

Outros são os percursos que levam Luis Gustavo Sturian a ressaltar os aspectos de desejo e medo que constituem a política. Neste caso, o interlocutor convidado para ensaio é Norbert Lechner. Faz questão, então, as apropriações das atividades black block enquanto potência de medo e incerteza para mobilizações nas disputas da arena partidária.

Marco Aurélio Moura trata do dialogismo – conceito de Mikail Bakhtin – entre as Vozes das redes sociais com as Vozes da midia. Neste sentido, aponta como as opiniões sobre os black blocs enunciadas nas redes sociais são “fato socioideológico”. Faz-se notar, em cada brecha do ensaio, seu desejo de superação de uma razão que contrai o presente histórico e dilata enormemente o futuro: crença num progresso sem limites em direção de um futuro infinito. Futuro projetado num tempo irreversível que é tempo homogêneo e vazio, base epistemológica importante da religião capitalismo, tal como notou Walter Benjamin e bem ressalta Marco Aurélio.

Michel Soares faz de seu diário de campo junto às manifestações black bloc ensaio sobre “a imagem de Lampião e a Copa que não lhe houve”. Pelas travessas marginais das avenidas abertas para o grande evento revela que os participantes mais bem preparados para o jogo pareciam ser os da imprensa internacional. Nos momentos de embate com pau e fogo, guerra, confusão, Michel encontra-se com Corisco, Volta-Seca, Maria Bonita e Lampião, então renascidos e incorporados pelos encapuzados. A poética do ensaio é provocativa: causa inquietação frente as ácidas legendas coladas em cenas tão delicadamente construídas.

Já Raquel Leoni nos convida a uma espécie de passeio pelas cambalhotas dos fluxos financeiros e mercadológicos que animam o parque de diversões da Copa do Mundo, então assombrado pelos black blocs. Cria trilhos entre os diferentes cadernos dos jornais noticiários conectando na mesma montanha-russa rostos dos jogadores de futebol, a gestão de carreiras esportivas, exigências da FIFA e o capital especulativo. Raquel faz de suas dificuldades diárias de conexão na Internet sinal sobre os limites da rede de atendimento das megaempresas do setor de comunicações e alerta importante sobre o preço cobrado para a roda gigante do “qualquer um pode ingressar”.

Vale ainda pontuar que a ideia de dispormos tais trabalhos em plataforma gratuita serve à proposta da produção de conhecimento acadêmico como um bem público e coletivo. Peço, apenas, que no caso de aproveitarem tais elaborações, anotem as devidas referências:

(nome do autor). (título do ensaio). Trabalho de conclusão da disciplina Leituras de Antropologia Crítica, FFLCH/ USP. São Paulo, julho de 2014. Disponível em: (endereço na Internet). Acessado em: (data de consulta).

Carolina de Camargo Abreu

Notas

1. Vale citar o Comitê Popular da Copa e o Movimento Passe Livre, por exemplo, que então engajaram milhares desde final de 2012, culminando em passeatas de grande massa em junho de 2013.

2. Além de Michael Taussig, também John Dawsey, professor na FFLCH/ USP, experimenta trabalhos no sentido de uma antropologia benjaminiana. Ver De que riem os boias-frias? Diários de antropologia e teatro (2013). 

3. Ver Gilberto Velho, “Capítulo 3 – Duas categorias de acusação na cultura brasileira contemporânea” em Individualismo e Cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Cf. Howard Becker. Outsiders- Estudos de sociologia do desvio.

Bibliografia citada

ADORNO, Theodor. “O ensaio como forma” In: Adorno, W. T., Notas de Literatura I. Tradução de Jorge de Almeida, Editora 34, Coleção Espírito Crítico, 2003, p. 15-45.

CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. 3a. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.

DAWSEY, John C. De que riem os bóias-frias? Diários de antropologia e teatro. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.

FABIAN, Johannes. Time and The Other: how anthropology makes its object. New York; Columbia University Press, [1983] 2002.

TAUSSIG, Michael. Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem: um estudo sobre o terror e a cura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, [1986]1993.

VELHO, Gilberto. Individualismo e Cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., [1981] 2008.

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